Autora de série sobre Marielle Franco se defende de acusações

Marielle Franco
Marielle Franco (Reprodução)

A Globoplay está pronta para produzir uma série de ficção sobre vida da vereadora Marielle Franco, assassinada a tiros em 2019. O problema é que o projeto vem sofrendo diversas críticas, as duas principais delas: será dirigida por José Padilha, e tem entre seus idealizadores apenas pessoas brancas.

Vereadora pelo PSOL, Marielle era negra, feminista, e lutava por políticas de inclusão social, e racial, além de criticar duramente as decisões adotadas pela direita brasileira, direita essa que Padilha nunca escondeu apoiar. Ele foi responsável por dirigir a série O Mecanismo, que dava um quê de heroísmo à operação Lava Jato, e a Sérgio Moro, que aquela época ainda era juiz.

Antonia Pellegrino, roteirista da série, contou em entrevista ao UOL que não mudou sua opinião em relação à série dirigida por Padilha, e que a considera “um panfleto fascista”, em suas palavras. “Sou progressista e não-punitivista. Ele se arrependeu. As pessoas erram. E não acho que seja um erro suficiente para a gente cancelar uma pessoa”, disse ela sobre Padilha, que reconheceu anteriormente ter se arrependido de acreditar piamente na conduta de Moro, acreditando que seu pacote anticrimes protegia milícias.

“A morte de Marielle envolve milícias. Este não é um projeto de série que você pode dar para qualquer pessoa. Falei com alguns produtores que não quiseram fazer. Existem riscos para quem está envolvido na realização deste projeto que as pessoas às vezes não conseguem dimensionar. Até porque elas não têm a obrigação de conhecer este tipo de universo por onde a morte da Marielle transita”, disse Antonia, que é casada com o deputado federal Marcelo Freixo, conhecido por tentar combater milícias. Ela ainda disse que Padilha terá mais segurança para executar o projeto não morando no Brasil, e assim não correndo riscos.

Ela conta que ela mesma foi quem levou Padilha para o projeto e vislumbra que ele possa alcançar não só o streaming, mas a TV aberta, e assim conquistar uma parceria internacional. Quanto à presença de negros, ela garante que terão muitos profissionais negros envolvidos na série, porém não encontrou um diretor negro com as qualidades que gostaria. “Se tivesse um Spike Lee, uma Ava DuVernay…”, disse na entrevista, se explicando mais tarde via Instagram: “Sobre a frase infeliz: ‘No Brasil não tem um Spike Lee’. O fato de não haver um Spike Lee no Brasil fala sobre o nosso racismo estrutural, e não sobre supremacia branca. Não tem uma Ava DuVernay no Brasil não porque não existam diretoras negras talentosas. Mas porque existe sim racismo estrutural. Abrir espaço para diretores, roteiristas, profissionais negros é um compromisso público que fizemos. E o julgamento de estarmos comprometidos em reproduzir racismo é muito precipitado”.