As Golpistas (Divulgação/Diamond Films)

Se Martin Scorsese criou o seu império de filmes de golpe e máfia, a exemplo de “O Lobo de Wall Street” e “Os Infiltrados”, agora chegou a vez de Lorene Scafaria levantar o seu. Neste ano o cinema de Hollywood é agraciado com As Golpistas (“Hustlers”), primeiro longa da cineasta a se distanciar das comédias que vinha produzindo e que com um elenco feminino com nomes famosos se destaca pela rica história contada num artigo de revista.

O filme gira em torno de um grupo de golpistas sob a visão da ex-stripper Destiny (Constance Wu), relatada em uma entrevista para Elizabeth (Julia Stiles), jornalista da New York Magazine. Em detalhes, ela conta como conseguiu um emprego numa boate e conheceu (e se tornou rapidamente amiga) de Ramona (Jennifer Lopez), considerada um ícone naquilo que faz. Com a crise que afetou Wall Street em 2008, Destiny e Ramona acompanharam o declínio de sua carreira quando o número de clientes da boate despencou, afetando os seus salários. Num plano ousado, elas se juntam com amigas para dopar homens ricos em bares e restaurantes e depois lucrar com seus cartões de créditos com limites fartos.

Se os filmes de Scorsese tem uma atmosfera pesada e um ritmo lento, Lorene Scafaria dá uma nova visão para a cinematografia de máfia. O ambiente machista vem à tona em meio a uma arrancada poderosa do empoderamento feminino, que se sobressai numa primeira virada da trama, quando “As Golpistas” põem seu plano em ação. Aqui as atuações se envolvem com a narração, à medida que Scafaria explora movimentos de câmera que extraem os momentos mais intensos das personagens. Enquanto cenas em plano-sequência acertam ao tentar manter a atenção do espectador no longa, a trilha sonora entrega cada faixa no momento certo, aliando ritmo, ambientação e narrativa com muita maestria.

Se hits de Britney Spears (“Gimme More”) e Janet Jackson (“Control”) surgem contando a história do filme, ícones do pop contemporâneo fazem a trama. Jennifer Lopez encabeça o time como Ramona, uma personagem intensa e que faz JLo entregar a melhor atuação da sua carreira. Constance Wu, que já tinha provado a que veio em “Podres de Ricos”, traz uma interpretação expressiva, cheia de nuances e carrega a trama com bastante vigor. Em alta na música, Cardi B incrementa o elenco como Diamond, a qual não precisa fazer muito esforço para atuar, sendo praticamente ela mesma em suas aparições. Também do meio musical e cada vez ganhando mais espaço, Lizzo faz pequenas aparições, embora roube a atenção, ao contrário de uma irrelevante aparição de Usher como ele mesmo. Para completar o time, Lili Reinhart garante muitas vezes o alívio cômico, mostrando que não é só um rostinho bonito saído de “Riverdale” tentando encontrar o seu lugar em Hollywood.

O roteiro de Lorene Scafaria tem como trunfo não só o artigo da New York Magazine escrito por Jessica Pressler, mas também a sua capacidade de dominar e desenvolver técnicas narrativas que se sobressaem frente às lentes da câmera. Numa trama de personagens que agem contra a lei, seria muito fácil identificar na personagem de Jennifer Lopez uma líder com perfil bastante influenciador – ideia que se dissolve diante da sua relação com as garotas e em especial com Destiny, que acaba vendo Ramona como uma irmã mais velha.

Com uma boba e irritante Dawn, Madeline Brewer surge na tentativa de causar uma ruptura na gangue, momento em que laços se desfazem em meio a uma traição que se perdoa pela empatia, mas que só se reatam em torno de histórias contadas para terceiros. Mostrando que mulheres unidas tendem a ser mais vitoriosas quando passam a se compreender ao invés de julgar a si mesmas, o que fica de As Golpistas é que talvez não haja sensação melhor do que estar em família, com uma vó igual a interpretada por Ching hoh-Wai, terminando a noite debaixo de um dos poderosos e aconchegantes casacos de pele da Ramona.

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