Bacurau
Bacurau (Divulgação)

Por: Paulo Cavalcante

Uma das coisas mais surpreendentes da sétima arte é a forma como ela pode dialogar com os problemas emergentes. Bacurau preenche bem esses requisitos: pensado há anos pelos cineastas Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, foi gravado em 2018 e expõe questões políticas e sociais que estão em alta no momento.

Não por acaso, a urgência do seu enredo deixou de lado diretores renomados no Festival de Cannes como Pedro Almodovar (“Dor e Glória”), Xavier Dolan (“Matthias & Maxime”), Ken Loach (“Sorry We Missed You”) e Bong Joon Ho (“Parasite”); o Prêmio do Juri foi entregue a Bacurau, que o dividiu com o francês “Les Miserables”, de Ladj Ly.

Bacurau tem início com a morte de Carmelita (Lia de Itamaracá), uma senhora de 94 anos que era bastante querida pelos moradores do pequeno povoado de Bacurau, no sertão nordestino. O evento é apenas o ponto de encontro de personagens que passam a perceber uma movimentação estranha naquela comunidade tão longínqua. O primeiro sinal de que algo estranho está acontecendo é o fato da cidade sumir dos mapas eletrônicos – sim, aqueles acessíveis pela internet.

Quando drones passam a vagar pelo céu, carros são baleados e cidadãos começam a ser assassinados, o povoado percebe que está sob ataque. Teresa (Bárbara Colen), Domingas (Sônia Braga), Acácio (Thomas Aquino), Plínio (Wilson Rabelo) e Lunga (Silvero Pereira), cada um por si ou unidos, tomam as providências para descobrir quem os ataca e as motivações para a invasão do povoado que parecia sempre ter sido um lugar apaziguado.

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As lentes de Kleber e Juliano captam nos mínimos detalhes em formato Cinemascope a beleza do sertão nordestino. A densidade de informações é grande na tela, seja por via poética, social ou política. Bacurau em primeira vista é o retrato do sertão dos noticiários, que definha na seca e com uma população miserável.

Mas à medida que a trama se desenrola, percebemos que é exatamente o contrário – ali vive uma população evoluída, muito à frente do seu tempo, mas que ao mesmo não deixou de lado as suas raízes. A eles não falta educação e sabem lidar muito bem com os problemas e tomar decisões, principalmente quando o assunto é política. Há de ficar para a história a reação do povo às investidas do prefeito que, em busca de renovar a candidatura, faz promessas que todos sabem que nunca irá cumprir.

Não bastasse a qualidade técnica e da construção da trama, Bacurau entrega um elenco afiado que vai desde os veteranos aos mais desconhecidos, ainda que promissores. Sonia Braga exala mais uma vez o seu brilho em seu segundo trabalho com Kleber Mendonça Filho (o primeiro foi “Aquarius”).

Na pele de Domingas, surge como uma problemática que invade o velório de Carmelita para causar, ainda que sob efeitos do álcool, mas que logo mostra as suas motivações e se torna uma peça essencial na trama de enfrentamento. O alemão Udo Kier tem em uma de suas melhores cenas o confronto com a personagem de Sonia Braga, na pele de um estrangeiro cheio de segundas intenções.

O protagonismo de Sonia Braga e Udo Kier divide as telas com Bárbara Colen e Thomas Aquino, cujos personagens dão margem à construção de Bacurau e com a chegada do Lunga de Silvero Pereira, transformam a trama num verdadeiro “western brasileiro”, assim como definiram os diretores de Bacurau.

É difícil falar de Bacurau pois cada detalhe da história é crucial para o seu desenvolvimento e pode ser considerado spoiler. Mas é importante definir o longa metragem como um longa de resistência, que recorre à raiz do povo nordestino para mostrar a sua sobriedade quanto aos problemas que pairam pela nação como um todo.

Não por isso, ainda resgata o passado para enfrentar o futuro, tocando na ferida e indo em contraponto a discursos tão atuais de quem vem tentando passar uma borracha nos livros de história e dar voz a sua própria e equivocada “verdade”. Bacurau é importante, é urgente e certamente ficará marcado como uma das grandes obras do cinema nacional nos últimos anos.

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