Joaquin Phoenix
Joaquin Phoenix vive o vilão Coringa nas telonas (Reprodução/YouTube – Warner Bros. Pictures Brasil)

Há aqueles que acreditam que o Coringa é o tipo de vilão que não precisa, ou não deveria, ser objeto de um filme que explora suas origens. O personagem perfeito, segundo muitos, cujas motivações – se é que ele as tem – deveriam permanecer para sempre um grande mistério. 

Como qualquer psicólogo ou psiquiatra que se preze pode atestar, porém, nenhum ato de maldade ou violência existe em um vácuo, e o que o filme de Todd Phillips consegue mostrar é que para alguns, a loucura é a única saída. 

Ao contrário do que tem sido vendido desde a sua estreia no Festival de Veneza, a produção está longe de glorificar ou incitar a violência, ao contrário: a explora como sintoma e mais tarde como reação e como principal resposta à sordidez que assola a sociedade, seja a de Gotham dos anos 70, seja a nossa. 

Joaquin Phoenix, no que é sem dúvida a melhor performance de 2019 até agora e uma das melhores da sua carreira, é Arthur Fleck, um homem abandonado pela sorte de todas as formas imagináveis, e que apesar de tudo, tenta levar a vida de maneira positiva. Uma missão que se torna a cada dia mais difícil, castigado como é por uma série de problemas mentais, entre eles uma rara condição que o faz gargalhar involuntariamente.

Junte-se a isso a pobreza, a indiferença, e quando finalmente o sonho da carreira de comediante e o relacionamento com a mãe – os únicos elementos que ainda o mantêm com os pés no chão – se desintegram, Arthur sucumbe à escuridão que de certa forma sempre o habitou, mantida à certa distância e adormecida pelas numerosas medicações. 

É importante observar que a noção entre o que é certo e errado nunca desaparece, não se torna turva, ela sempre está lá. O problema é que a partir de um certo ponto, para Arthur, isso deixa de fazer diferença. Se o Coringa que conhecemos só deseja ver o mundo em chamas, é porque esse é o seu estado natural. 

Somente na destruição Arthur finalmente se encontra, somente no caos o mundo ao seu redor faz sentido, somente assim ele vê o seu interior representado externamente. Só assim o homem se transforma no palhaço que não distingue culpados de inocentes, que compartilha com todos, de forma perversa, sua dor e desejo de vingança. 

Veredito

Phoenix interpreta essa realização, assim como todos os outros momentos, com clareza e maestria. Sua postura, andar, voz, expressão, olhar – tudo muda. O filme, entretanto, tem problemas, e eles se resumem a certas escolhas da direção, algumas cenas que deveriam ter sido repensadas, um roteiro mais forte, uma estrutura mais bem trabalhada. 

De forma geral, porém, é de longe o trabalho mais bem realizado da Warner/DC; e algo que a Marvel, do alto dos seus bilhões no box office, provavelmente nunca teria coragem de copiar. Coringa merece ser visto várias vezes, e que venha “The Batman”.  

 

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