Friends

Isso é meio óbvio, mas precisa de textão para explicar…

Friends é a sitcom mais influente dos últimos 30 anos, e uma das melhores séries de todos os tempos. Goste você ou não dessa afirmação, essa é a verdade nua e crua. E quase 15 anos depois do seu series finale, por conta de sua disponibilidade na Netflix, um novo debate surgiu em torno da série: as supostas posturas e atitudes machistas e homofóbicas em sua trama.

Não é um debate novo (já se falava sobre isso em 30 Rock), toda essa discussão aconteceu por causa dos ‘millenials tardios’ (quem nasceu na segunda metade da década de 1990), e que só agora vê Friends pela primeira vez.

O primeiro argumento a favor de Friends é a época em que ela foi concebida. Nós estamos em 2018, e começamos a questionar tais comportamentos, o que é algo genial por parte dos millenials. Porém, é preciso entender o contexto social da época da série, e quando olhamos para a década de 1990, vemos claramente que a homofobia era algo muito mais presente na sociedade.

Friends sempre flertou com o assunto. Por exemplo, na recém descoberta heterossexualidade do marido patinador gay de Phoebe, ou na normalização total do casamento de Carol e Susan. E isso, em uma época em que o matrimônio homossexual estava bem longe de ser uma realidade nos EUA.

Mas… até que ponto isso é ofensa, ou apenas a pedra do sapato de ser um produto de sua época.

Friends tem mais de 20 anos, e a maioria dos seus episódios aconteceram na década de 1990. A série reflete muito do seu tempo. E, de lá para cá, a sociedade evoluiu em muitos pontos.

Hoje em dia, muitas das piadas feitas na época não aconteceriam. Muito porque a sociedade hoje aborda mais os temas considerados ‘minoritários’.

Porém, a grande pedra no sapato de Friends hoje é o pai do Chandler.

O divórcio dos pais de Chandler teve várias peculiaridades. Seu pai é trans (na série não fica claro o ponto de sua transformação, mas ele se identifica como Helena, interpretada por Kathleen Turner), e até naquela época foi uma saída dos roteiristas bem difícil dos fãs engolirem.

Não quero defender o indefensável, mas isso aconteceu pelo grande desconhecimento do público sobre essa realidade. E, olha como são as coisas: até hoje a sociedade não entende direito o amplo espectro de gênero que vivemos hoje.

 

 

Além disso, as pessoas precisam entender a série como ela é. Friends é uma sitcom sobre amigos, e é uma das que melhor refletem as dinâmicas que existem entre os grupos de amigos, incluindo a visão de mundo de cada um e o contraste com nossas próprias inseguranças, ou das imagens que projetamos para as pessoas.

Tal e como acontece na vida, muitas vezes o que hoje é considerado ofensivo, naquela época não era. De novo, vivemos uma grande evolução na discussão de temas menores, gastando mais tempo pensando nesses temas.

A série explora um espectro da dinâmica dos personagens masculinos, projetando a imagem de como tinha que ser um homem, e o que acontece quando um deles ultrapassava a linha previamente delimitada. Por isso, Friends sempre brincou com a feminilidade eventual de Ross, Chandler e Joey. Mas nunca para ofender. Sempre para fazer sorrir. E até humanizar tais personagens.

Por exemplo: Chandler sempre teve medo de que as pessoas o vissem como gay, por causa de sua forma de pensar e estilo de vida. Os homens da série sempre tiveram esse drama, pois o mundo em que eles viviam não havia conflitos. Em vários momentos, vimos Chandler e Joey como um casal, e isso era a coisa mais normal do mundo, dentro da perspectiva da série. Mas era algo que incomodava muito menos ao aspirante de ator do que ao futuro marido da Monica.

O sexismo pode ser melhor aplicado com Ross. Muito além de sua relação com Carol, que determinava quais eram os brinquedos que Ben poderia ter, ou sua reação quando viu o garoto mais feliz com uma boneca Barbie do que com um GI Joe.

A série explorou em várias oportunidades as origens das inseguranças de Ross. Por exemplo, quando Rachel contrata um homem para ser babá de Emma, algo que Ross não acha muita graça ao constatar que o rapaz (Freddie Prince Jr.) era ‘sensível demais’.

 

 

Muita gente também reclama da ausência de diversidade racial e sexual em Friends. Até o momento em que Charlie (Aisha Tyler) aparece na nona e décima temporada da série, não houve um personagem recorrente ou secundário de cor na trama.

Aqui, temos um problema endêmico na televisão e das sitcoms dos anos 90, e que perdura até hoje na TV.

Nas décadas de 1980 e 1990, havia uma grande segregação racial na TV, com séries de brancos e séries de negros. As cotas familiares justificavam em partes tal divisão, mas no caso dos ‘amigos’, não havia muita desculpa, e Friends foi criticada por muito tempo por isso.

Outra acusação contra Friends é que a série seria machista. É claro que tem alguns toques sexistas bem bobos, como o “how you doing” quando qualquer garota aparece na série. Mesmo assim, quando Joey, Chandler e Ross começam com suas coisas de ‘macho alfa’, a série sempre destacou o quão ridículos eles eram nessas tentativas.

 

 

Além disso, as garotas de Friends vão se empoderando ao longo da série. Deixando de lado a gordofobia com a Monica (que é algo realmente tenso), ninguém se importava muito que as três tinham uma vida sexual muito ativa, apesar dos produtores se preocuparem se isso ia pegar mal junto ao público.

Em Friends, meninas e meninos sempre estiveram no mesmo nível quanto à liberdade e sexualidade nas suas relações. Talvez por isso o relacionamento entre Ross e Rachel foi algo tão problemático ao longo de dez temporadas.

Já Phoebe era dona de si. Criou suas regras, não se prendeu a ninguém, e quando foi assediada por Paolo, denunciou o rapaz sem pensar duas vezes. Monica, muito durona, decidiu deixar Richard porque ele queria ter filhos e ela não. Rachel abandonou uma vida confortável e estável para recomeçar do zero, indo de garçonete a executiva no mundo da moda.

Em mais de 200 episódios de Friends, com certeza vamos encontrar muitos exemplos e situações que hoje seriam alarmantes. Mas a maioria está muito mais relacionada à época em que a série foi escrita do que o proposital ato de ser machista e homofóbico. Reforço: a série era um reflexo da sociedade da época, apresentando questões que, naquela época, estavam bem longe de ser consideradas normais.

Moral da história: Friends, de certo modo, estava à frente do seu tempo. E nem todo mundo sabe lidar com isso até hoje.

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