O contexto (e a falta dele) expulsaram James Gunn da Marvel

James Gunn não tinha uma máquina do tempo para prever o próprio futuro, e esse post não tem como objetivo defendê-lo. O que queremos é levantar a discussão sobre a sua demissão e, o mais importante, em o quanto Hollywood está comprometida a combater certos temas. Ou em promover uma censura prévia aos seus realizadores.

O anúncio da demissão do responsável pela franquia de filmes Os Guardiões da Galáxia fez com que a Marvel se fizesse presente na San Diego Comic-Con 2018 de alguma forma. Não foi o suficiente para ofuscar a DC, que mandou muito bem no evento. Mas chamou a atenção de todos.

É uma decisão até surpreendente, levando em consideração da importância de Gunn no sucesso desses dois filmes. Por outro lado, olhando para um cenário mais amplo, era o esperado, diante do momento que estamos vivendo como sociedade como um todo, e a fase que Hollywood passa em particular, tentando adotar valores mais familiares, ou que pelo menos se alinham com a filosofia familiar que essa indústria quer passar, depois dos recentes escândalos de assédio sexual e pedofilia.

James Gunn não cometeu crimes como Kevin Spacey, Harvey Weinstein ou Louis C.K. Ele escreveu em redes sociais piadas infelizes com temas polêmicos como pedofilia e racismo. E fez isso em tweets de 2008 e 2009. Ou seja, a Disney tomou a decisão se valendo exatamente da mesma regra que fez com que alguns influenciadores das redes sociais aqui no Brasil perdessem alguns patrocínios.

Não vou usar de dois pesos e duas medidas. James Gunn escreveu o que escreveu, e o problema não está na falta de análise do contexto do que foi escrito. Eu entendo que, na época, ele era um comediante ácido e provocador, e que tudo o que foi escrito por ele tinha o contexto de uma piada. O grande problema é que ele escreveu isso. E, fatalmente, algumas pessoas se ofenderam com isso. Um grupo considerável de pessoas, certamente.

Gunn não tinha uma máquina do tempo para viajar no futuro e descobrir que, dez anos depois das piadas infelizes, ele seria roteirista e diretor de filmes de uma franquia da Marvel que, por sua vez, seria de propriedade da Disney. Nunca sabemos as voltas que a vida dá. Talvez se algum dia ele soubesse que, no futuro, trabalharia para uma empresa com padrões tão familiares, ele não faria as piadas que fez.

Por outro lado, se ele não tivesse se permitido fazer tais piadas, Gunn jamais chegaria na Marvel, pois não trilharia o mesmo caminho que o levou até lá.

Ou seja, tinha que acontecer assim.

James Gunn fez o mesmo que o youtuber brasileiro quando a bomba estourou: se explicou, pediu desculpas e aceitou a decisão e suas consequências. Fez o que tinha que fazer.

A Disney pode até ter errado em não pesquisar antes o perfil de Gunn no Twitter, o que poderia ter interferido de forma decisiva para uma não contratação. Porém, tem o direito de decidir assim, e mostra mais uma vez que a indústria de Hollywood quer ser o exemplo de evolução da comunidade como um todo, e em como estamos mudando a nossa forma de encarar certas “manifestações de humor”.

É claro que a Disney e a Marvel perdem com a saída de Gunn do comando de Os Guardiões da Galáxia. Sua visão criativa era singular, e foi determinante inclusive para a concepção de parte de Vingadores: Guerra Infinita (ainda bem que Vingadores 4 já está filmado). Porém, olhando a longo prazo, é uma decisão coerente.

Talvez todos nós precisamos refletir sobre os contextos aplicados em cada caso que resulta em uma decisão drástica como essa. Porém, vale a mesma regra para Louis C.K., que sempre achei um lixo de comediante por lidar com os mesmos padrões de humor. Gunn também fez piadas bem bosta no passado. Pode ter mudado de opinião e de pensamento como um todo.

Mas uma vez na internet, não tem volta. E todos nós temos que entender isso.

E entender que estamos mudando. Evoluindo. E isso não tem volta também.

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