Quinta e pior temporada? Supergirl perde a grande chance de desenvolver seu enredo

Melissa Benoist e Staz Nair como Supergirl e William em Supergirl
Melissa Benoist e Staz Nair como Supergirl e William em Supergirl (Divulgação/ The CW)

Supergirl chegou ao fim de sua quinta temporada no fim da semana passada nos Estados Unidos, e neste domingo, 24 de maio, no Brasil ao ter seu episódio exibido pela Warner Channel. Diferente de outras séries da The CW, emissora que a produz, a história da heroína não conseguiu disfarçar que foi interrompida devido à pandemia causada pelo coronavírus. Mas antes, esse fosse o único problema enfrentado pelo quinto ano, considerado por muitos fãs, o mais fraco de todos. E cá para nós, eles não estão errados.

Para entender melhor o que aconteceu precisamos voltar ao ano de 2015, quando a série ainda era produzida e exibida pela CBS, que a considerou cara demais e jogou a bola para a The CW, no final da primeira temporada. Com o bastão criativo a cargo da mesma equipe, agora contratada por uma emissora menor, era possível conter custos sacrificando efeitos especiais, mandando embora atores renomados (e caros), e ainda fazer um ajuste nas locações que se mudaram de Los Angeles para Vancouver, no Canadá. Para não sair perdendo em tudo, Supergirl compensou no roteiro.

A série não queria sofrer as mesmas críticas de suas colegas The Flash, e Arrow sofriam na época, e quis explorar temas cotidianos, e que estavam em pauta nos principais jornais e revistas do mundo, mas pegando para si a tônica da heroína kriptoniana, considerada a prima pobre do Superman. Dedos a postos, era hora de cutucar feridas abertas da sociedade americana, transformando cada um dos temas, em metáforas muito bem vindas. A homossexualidade, o sistema prisional, e mais recentemente o universo político e o imigrante ilegal tornaram-se pauta.

A quarta temporada por exemplo, foi considerada pelos espectadores uma das melhores, porque conseguiu desenvolver a heroína, seu alterego, e entregou uma história sólida sobre uma presidente mulher sendo impeachmada quando a população descobre que ela é uma alienígena, enquanto o país vê crescer os ataques de ódio a outros aliens. Com isso, surgem grupos conservadores que pregam a superioridade humana, todos liderados por um professor universitário que promoveu um levante contra aliens, e acabou ganhando um cargo no governo (muitos fãs brasileiros compararam com a nossa política). Logo que a quinta temporada estreou, a expectativa era altíssima, afinal até a abertura de Supergirl havia mudado com a narração feita por Melissa Benoist dizendo “Sou uma refugiada no planeta terra”, mas essa mesma expectativa foi tão alta que acabou não sendo suprida.

Melissa Benoist em Quinta temporada de Supergirl
Melissa Benoist em Quinta temporada de Supergirl (Divulgação/ The CW)



Erroneamente Supergirl resolveu focar em seus pontos mais fracos. Uma nova personagem, Andrea Rojas (Julie Gonzalo) surgiu como uma compradora, e nova chefe da Catco WorldWide Media, grupo de comunicação em que Kara (Benoist) trabalha, e impôs regras editoriais que deixavam de visar a qualidade e sim, os cliques, algo comum em tempos de guerra por audiência online a qualquer custo. Mas esta era apenas uma sub-trama para o que estava por vir: a criação do Obsidian. 

Obsidian era uma plataforma de Second Life, onde o usuário simulava uma nova vida ao colocar lentes de contato de realidade virtual. Tudo muito Black Mirror, assim como a proposta da temporada, que era expor a tecnologia como principal vilã. Mas um tema desse, assim como o discurso de que como a tecnologia afeta negativamente a vida de alguém, precisa de uma explicação, ou pelo menos um ponto de reflexão, o que não aconteceu. Nisso, a temporada paralelamente começou a escavar o passado de Andrea, para mostrar que ela não era uma vilã, e sim uma vítima de um grupo sobrenatural que existia antes de Cristo chamado de Leviatã. Considerados deuses, eles eram responsáveis por todas as catástrofes que aconteceram no mundo e precisavam de alguém para pará-los.

A CW já deveria ter aprendido que tudo que envolve o nome Leviatã é um fracasso, vide a oitava e ridícula temporada de Supernatural. No meio dessa salada, os roteiristas quiseram mexer com o emocional da protagonista trazendo para o centro da ação sua história mal resolvida com Lena (Katie McGraph).

A herdeira mais jovem da família Luthor se magoou ao saber por Lex (Jon Cryer), irmão adotivo que ela sempre odiou (e queria se livrar de tudo o que ele representou para a família), que Kara mentiu para ela por vários anos ao não revelar que era Supergirl. As personagens brigaram porque Lena, traumatizada por ter sido traída por todos em sua vida, considerou aquela, mais uma traição. E a quinta temporada girou em círculos em inúmeras cenas de Kara e Lena em conversas emocionais que não iam para lugar nenhum. A Crise das Infinitas Terras aconteceu, mudou tudo de lugar e Supergirl parece ter sido a série mais afetada do Arrowverse.

Tudo ficou pior do que já estava como se os roteiristas não tivessem um plano para prosseguir a história. Até o episódio 100 (13º da temporada), que era para ser algo comemorativo e ter um enredo satisfatório, foi um remendo do mela-mela entre Kara e Lena, onde a mocinha tentou voltar no tempo para escolher em qual momento da vida seria o mais ideal para abrir o jogo com Lena, e evitar a briga. Alerta de clichê: em todas as situações, algo acontecia, e fazia com que elas brigassem de novo. Lena e Kara funcionam muito bem juntas em todas as cenas, e separá-las foi sem dúvida um grande erro. 

Jon Cryer e Katie McGrath como Lex Luthor e Lena Luthor em Supergirl
Jon Cryer e Katie McGrath como Lex Luthor e Lena Luthor em Supergirl (Divulgação/ The CW)

Como consequência da Crise, Lex Luthor que havia morrido anteriormente, foi trazido de volta a vida, dessa vez como herói popular, e benfeitor do mundo. O vilão contou para Lena tudo o que tinha acontecido antes da Crise, dizendo como a Kara a traiu, apenas para que ela ficasse ao seu lado num plano de aliar sua pesquisa científica a novas conquistas que ambos fariam juntos. Assim, Lena abraçou a dubiedade, enquanto os Leviatãs corriam por fora. De tão desorganizada, a temporada teve tantos vilões, que até Brainiac (Jesse Rath), desligou sua ‘humanidade’, e passou a ajudar Lex indo contra seus amigos, e até contra os próprios princípios. 

No final das contas, Lex Luthor foi quem se sobressaiu à trama confusa criada pelos roteiristas, principalmente num episódio em que esteve no centro da ação, ligando todos os pontos da temporada, mostrando que ele queria aprisionar a humanidade na realidade virtual, enquanto contava com os Leviatãs para destruir a garota de aço. Jon Cryer, soube dosar o sarcasmo de seu personagem, com aquele quê de genialidade, arrogância e maestria que só Luthor tem, desde os quadrinhos. Ele brilhou em todas as cenas, mesmo quando a história era rasa demais. 

Até aqui, fica a impressão de que o programa parou na quarta temporada, e esqueceu de se desenvolver (a única coisa que se desenvolveu foi o uniforme da heroína, e para pior, já que ficou parecido demais com o traje da Capitã Marvel de Brie Larson, deixando inclusive seu S mais apagado). Tramas inteiras que tinham potencial foram abandonadas, como a de Alex (Chyler Leigh), que desde o segundo ano fala sobre a possibilidade de ser mãe, ou mesmo as consequências da transexualidade de Nia (Nicole Maines), sendo ela agora uma figura pública dentro da CatCo. Infelizmente, nenhum momento foi memorável, nem mesmo quando sem motivo algum, a série tentou encontrar um par romântico para Kara ao forçar sua ligação com William (Staz Nair). Por falar em Alex, Supergirl está desperdiçando uma ótima personagem humana, colocando nela sonhos de se tornar uma super-heroína, como ela mostrou durante a temporada, e até chegou a ganhar um traje e cenas com coreografias repletas de vergonha alheia no último episódio. Entre mortos e feridos, apenas Jon Cryer se salvou.